No metrô

Posted on Junho 7, 2007. Filed under: auto-controle, irritação | Tags: , , |

Aquela “viagem” da Zona Sul ao Centro deveria ser rápida, e sem nenhum contratempo. Mas, enganei-me. “Se ficasse perto da porta, seria mais fácil descer”, pensei. Mais um equívoco. Esquecera-me de que, até o Centro, o Metrô pararia em algumas estações e, ao se abrirem as portas, uma enxurrada de gente entraria e sairia, e eu lá, bem no meio da porta, como uma roleta humana.

Mantive-me firme, porém. O Centro chegaria logo. Mas, o pior ainda estava por vir. Em uma das paradas, a multidão entrou com um pouco de ímpeto, e, uma senhora empurrou-me um pouco além do esperado. Todos se acomodaram e aquela pressão em minhas costas aumentava, a ponto de desequilibrar-me. “Senhora, pare de empurrar, por favor?”.pedi. Um resmungo e novo empurrão. “Pare de empurrar!”, insisti. A mulher parou. Em seguida, novo empurrão. “Não empurre, senhora!”.

Os momentos seguintes foram hilários: a mulher iniciou um discurso , em voz alta, uma espécie de monólogo: “Eu não tenho condições de pegar táxi, ganho pouco. Se tivesse condições, vinha de táxi. A gente pega um trem cheio e tem que escutar uma mulher dando fricote. Um cristal, que ninguém pode encostar, que vai quebrar”. E, virando-se para a “incomodada” aqui, disse: Cuidado com o cristal, se não vai quebrar”. E repetia a frase sadicamente.

“Já chega, senhora”, supliquei. Nada. A outra continuava em seu desafiante discurso. “Chega, senhora, não sou mulher de fricote. Pelo contrário, sou uma pessoa muito simples. Apenas pedi para a senhora não empurrar. E a senhora parou. Agora, já chega!”. Mas a outra não se contentava. Queria provocar.

“Próxima estação: Centro. Desembarque pelo lado esquerdo.” A voz do condutor interrompe o discurso incômodo. Desceria e tudo ficaria para trás. Ficaria? A outra também desce na mesma estação e, é claro, falando sem parar: “Vai, cristal, passa cristal!” E abria passagem com os braços abertos, inclinando o corpo , como num cumprimento de cavalheiros em quadrilha de São João.  E continuou seguindo-me nesse ritual de “passa, cristal” até a escada rolante. A essa altura, eu, que fôra empurrada, perco a paciência e digo:

- A senhora é muito forte, hein! Como é que mexe com alguém na rua , sem saber quem é? Cuidado!

- Cristal!, Passa , cristal! Debochava a outra, com um sorriso sarcástico. E fazia novamente o “cumprimento de cavalheiros”, dobrando os joelhos e abrindo os braços, como a pedir passagem para que a “cristal” aqui passasse.

- A senhora  quer sair de perto de mim, por favor! – disse, parada, e fixando a outra. – a senhora não sabe com quem está mexendo. Ou é maluca ou é bandida para desacatar quem não conhece. Ou é bandida ou é maluca!”, eu repetia, agora sem paciência nenhuma.

A mulher, ao perceber que eu parara e a encarara, e, ao ouvir a frase dita anteriormente, disparou escada rolante acima e desapareceu no meio da multidão.

Por uns instantes senti-me muito irritada com aquela situação, mas durou só alguns segundos. Pensei: “não vou permitir que isso me afete. Não vou me aborrecer com isso!” E, uma paz invadiu-me, ao lembrar-me de que é possível decidir quem vai controlar nosso humor: nós mesmos, ou os outros.

“… tudo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama; se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” Filipenses 4:8″

imagem daqui 

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